O IBGE divulga nesta terça-feira a primeira inflação oficial deste ano. A projeção do Boletim Focus, que é a mediana da opinão do mercado financeiro, aponta que o IPCA de janeiro será de 0,33%. Com isso, chegaria a 4,42% no acumulado dos 12 meses, percentual muito perto do teto da meta do Banco Central de 4,50%, após ter terminado ao ano em 4,26% Para esta ano, a projeção do Boletim Focus para o ano aponta que a inflação termina em 3,97%, a quinta semana seguida de querda.
Mas como deve ser a trajetória da infçação deste ano? Vai encostar na meta ou realmente tende a cair? O economista André Braz, da FGV, explica que, a questão é a base de comparação do ano passado. Em janeiro de 2025, a inflação foi muito baixa, de 0, 16%, por conta do bônus de Itaipu, que derrubou as contas de energia de forma bem concentrada.
– Ou seja: mesmo que a inflação de janeiro venha baixa, deve ficar acima da registrada no mesmo mês do ano passado. A estimativa é que o IPCA fique perto de 0,4%. Como janeiro de 2025 teve uma taxa excepcionalmente baixa (0,16%), a troca desse número por um índice maior agora faz a inflação acumulada em 12 meses acelerar, e pode levar o indicador a encostar em 4,5%.
Já em fevereiro acontece o contrário, explica. Em fevereiro do ano passado, sem o bônus, a taxa de fevereiro veio alta, acima de 1,31%, com acumulado de 12 meses chegando a 5%.
– A taxa em 12 meses de fevereiro deste ano cai, voltando para algo perto de 3,3%. Isso tem a ver, portanto, com a concentração de reajustes mês a mês. À medida que 2026 for substituindo 2025, com taxas menores, isso tende a manter o IPCA perto do nível esperado para o fim do ano.
Vale a pena lembrar como foi o comportamento da inflação no ano passado. O IPCA acumulado em 12 meses mostrou uma trajetória de alta no início de 2025, saindo de 4,56% em janeiro e atingindo o pico de 5,53% em abril. A partir de maio, a inflação passou a perder força e oscilou em torno de 5,1% a 5,3% até setembro. No último trimestre, a desaceleração ficou mais clara: o indicador caiu de 5,17% em setembro para 4,68% em outubro, 4,46% em novembro e fechou dezembro em 4,26%.
No ano passado, o principal problema foram os alimentos, cujo os preços começaram a cair de verdade no segundo semestre, salienta Braz.
– Por isso, eu acho que as principais novidades do IPCA devem acontecer ainda no primeiro semestre. No segundo semestre, a tendência é de maior estabilidade da inflação em 12 meses, perto de onde o mercado projeta que ela termine, em torno de 3,8% ou 3,9%.
Com câmbio e efeito da redução da gasolina, Andrea Angelo, economista da Warren, revisou a projeção da inflação para este ano de 4,50% para 4,20%. A avaliação da economista é que a inflação acumulada em 12 meses deve cair ao longo do primeiro semestre, mas pode voltar a subir na segunda metade do ano.
Na avaliação da economista, por um lado podem segurar os preços a possível queda do petróleo para a faixa de US$ 55 a US$ 60 e as discussões sobre a criação de um programa de “tarifa zero” no transporte urbano. Mas, do outro, existem riscos de a inflação voltar a ganhar força, principalmente se o clima deixar de ajudar na produção de alimentos e se o mercado de trabalho continuar aquecido, com salários subindo e serviços ficando mais caros.
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, salienta que a projeção da casa está mais pessimista do que o Boletim Focus, 4,1% para a inflação no fim de 2026. Mas o cenário está sob revisão. E a expectativa é de uma inflação mais baixa, mais comportada, especialmente por conta do câmbio mais baixo e desaquecimento da economia por conta dos juros altos.
– 2026 deve responder principalmente à política monetária já implementada, que está no seu teto, na sua máxima histórica dos últimos anos. Por causa da defasagem, esse efeito ainda vai se espalhar ao longo do tempo e deve ser suficiente para atuar como um mecanismo de trazer essa inflação para dentro da meta. Dito isso, a gente espera, sim, uma leitura de desaceleração gradual da inflação.
Para o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-RJ, as duas principais variáveis que ajudaram o resultado de 2025 foram a queda do dólar (com a queda do petróleo) e a desaceleração dos alimentos, principalmente no fim do ano.
No entanto, o professor não acredita que o dólar e petróleo vão cair mais. Aqui no Brasil, ele acha que é difícil os alimentos repetirem os preços baixos de 2025, mesmo que não subam muito.
– Além disso, ainda teremos gastos públicos ligados ao calendário eleitoral, que tendem a estimular o consumo e pressionar o resultado fiscal.
