Demanda da China por petróleo pode definir rumo dos preços em meio a guerra no Irã

15 de julho de 2026

A passagem de petroleiros pelo estreito de Hormuz foi significativamente desacelerada pelo ciclo persistente de hostilidade entre Estados Unidos e Irã. Mas se os preços na bomba de combustível vão subir ou cair dependerá não apenas de quanto petróleo flui do golfo Pérsico, mas também de decisões tomadas pela China.

Normalmente a maior importadora de petróleo do mundo, a China cortou drasticamente as compras recentemente, reduzindo tanto a demanda que impediu que os preços do petróleo subissem ainda mais no início da guerra.

Agora, uma das maiores questões enfrentadas pelo mercado é: quando a China voltará a comprar mais petróleo? Quanto mais tempo o país se contiver, mais baixos os preços do petróleo tendem a ficar. O inverso também é verdadeiro. Um aumento na demanda da China elevaria os preços, mantidas as demais condições.

“Para onde vai a demanda chinesa é realmente a peça mais importante do quebra-cabeça”, disse Karen Young, pesquisadora sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia.

Outro fator significativo é a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os preços do diesel no atacado dispararam na semana passada depois que a Rússia, uma das maiores exportadoras do mundo, proibiu as vendas de diesel para o exterior para preservar os estoques internos. Ataques de drones ucranianos danificaram severamente refinarias de petróleo russas, limitando a capacidade do país de transformar petróleo em combustível para transporte.

Os preços dos combustíveis no atacado geralmente antecipam mudanças nos preços ao consumidor nos postos de gasolina, onde o diesel estava em média a US$ 4,88 por galão nos EUA nesta segunda-feira (13), alta de 2,5% em relação à semana anterior, segundo o clube automobilístico AAA.

Houve sinais de que as importações de petróleo da China podem aumentar em breve. A AIE (Agência Internacional de Energia) citou recentemente esforços de aquisição e entregas pontuais de petroleiros como indícios de “renovado interesse de compra chinês”.

Permanece um mistério para a maior parte do mercado como a China conseguiu reduzir as importações em quase um terço em comparação com o ano anterior, de acordo com dados alfandegários de maio divulgados por Pequim. Acredita-se amplamente que a China tenha o maior estoque de petróleo do mundo, mas não parece ter retirado muito dos estoques de superfície que os analistas podem monitorar via satélite. E embora suas refinarias estejam processando menos petróleo do que o habitual durante a guerra —e o país tenha proibido exportações de derivados de petróleo logo no início—, isso também não explica totalmente a enorme queda nas importações.

O país tem outras cartas na manga, incluindo vastos recursos de carvão que pode usar em vez de derivados de petróleo para fabricar produtos químicos. Ao mesmo tempo, a China obtém grande parte de sua eletricidade de energia renovável e é o maior mercado de veículos elétricos do mundo. Sua extensa rede ferroviária de alta velocidade, a maior do mundo, também reduz a demanda por petróleo.

Este ano provavelmente será a primeira vez que o consumo de petróleo da China cairá significativamente desde as crises do petróleo dos anos 1970 e início dos anos 1980, disse a AIE.

E, independentemente da rapidez com que a demanda se recupere na China, o vasto estoque de petróleo do país dá uma margem de segurança significativa. Muitos acreditam que a China pode continuar adiando o aumento das importações por algum tempo.

A capacidade da China de gerenciar o mercado aumentando ou diminuindo as compras de petróleo foi uma das maiores surpresas da guerra, disseram analistas.

Esse poder sobre o mercado global é particularmente notável, já que o país importa a maioria de seu petróleo. Por décadas, os produtores detinham tradicionalmente as cartas nos preços do petróleo. Repetidas vezes, membros da OPEP alavancaram sua participação significativa no mercado para fazer os preços dispararem, como aconteceu nos anos 1970, ou para permitir que despencassem, como em 2014.

Mas a influência da OPEP caiu nos últimos anos, primeiro pelo rápido crescimento da produção de petróleo dos EUA e, nos últimos meses, pela saída de um dos maiores membros do cartel, os Emirados Árabes Unidos.

“A China efetivamente opera mais poder de mercado do que qualquer nação na Terra, incluindo Arábia Saudita e Estados Unidos”, disse Gregory Brew, analista da empresa de pesquisa Eurasia Group.

É claro que a intensidade do conflito no golfo Pérsico —e até que ponto ele afugenta os armadores— continua sendo criticamente importante para os mercados de energia.

Nesta segunda, o presidente Donald Trump disse que estava reimplementando um bloqueio naval aos portos do Irã, uma medida destinada a impedir que grande parte do petróleo do país flua para o mercado global.

Ele também deixou claro que os EUA não planejam ceder o controle do estreito ao Irã. “Os EUA serão, a partir de agora, conhecidos como ‘O GUARDIÃO DO ESTREITO DE HORMUZ'”, ele postou nas redes sociais, acrescentando que o país buscaria um pedágio de 20% de “toda carga transportada”.

A capacidade de cobrar dos armadores pela passagem segura pelo estreito tem sido uma grande questão de disputa ao longo da guerra, e não estava claro que autoridade os EUA teriam para aplicar tais cobranças.

Desde o início de maio, os militares dos EUA têm ajudado navios a passar pelo estreito em rotas próximas a Omã. Centenas de milhões de barris de petróleo bruto foram movimentados sob esse esforço até o final de junho, segundo o Comando Central dos EUA.

“Isso tem sido eficaz até agora, e pode continuar sendo eficaz”, disse Richard Goldberg, ex-conselheiro sênior do Conselho de Dominância Energética Nacional de Trump. “Estamos em um momento da verdade sobre como isso vai se desenrolar.”

Por enquanto, entre a energia ainda fluindo do golfo Pérsico, o aumento da produção em outros países e a menor demanda de países como a China, o mundo tem o petróleo de que precisa. Isso se reflete nos preços, que estão pairando cerca de 7% acima dos níveis pré-guerra.

Mas carros e caminhões funcionam com gasolina e diesel, não com petróleo bruto. E entre a infraestrutura danificada no golfo e na Rússia, as refinarias estão processando muito menos petróleo do que o habitual. Isso explica em parte por que abastecer continua mais caro do que era antes da guerra.

(The New York Times)

Autor/Veículo: Folha de São Paulo

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