Com acordo entre EUA e Irã, petróleo fecha em queda de 4,7%, aos US$ 83

16 de junho de 2026

O barril do tipo Brent para agosto (referência internacional), commodity que foi o principal guia dos indicadores ao longo dos últimos 100 dias, encerrou a segunda-feira em baixa de 4,76%, cotado a US$ 83,17.

O movimento refletiu o acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do fluxo global do óleo. A queda do barril impulsionou uma forte alta dos ativos de maior risco no exterior, movimento que não foi captado no Brasil.

Por aqui, o principal índice da Bolsa foi pressionado pelas ações de petrolíferas e do setor financeiro, fechando em baixa de 0,42%, aos 170.415 pontos. Já o câmbio encerrou em ligeira alta de 0,06%, aos R$ 5,06. Ainda que leve, o alívio dos juros futuros não reverteu as projeções futuras adotadas desde a semana passada.

Para analistas, o não aproveitamento do bom humor global foi apagado pelo pessimismo local. Além do impacto na previsão da inflação por conta do preço do petróleo beirando os US$ 100 há dois meses, o aumento dos gastos públicos neste ano eleitoral voltou às conversas nas mesas de operações e nos relatórios de grandes instituições financeiras. O Boletim Focus, documento que ouve participantes do mercado financeiro e é realizado pelo Banco Central, mostrou nova rodada de piora das projeções para a inflação e juros neste e nos próximos anos:

— É um ambiente que vai melhorar em geral por conta da redução do conflito, acalma. Mas, no caso brasileiro, houve uma piora importante, relacionada à expansão fiscal, com gasto adicional de R$ 215 bilhões — ele diz, afirmando que o aumento dos gastos públicos tendem a “atrapalhar o Banco Central a reduzir os juros”:

— O Banco Central tem, então, que abortar grande parte da queda (da Taxa Selic). E isso tudo está sendo realizado à margem do arcabouço fiscal, num momento em que se precisava de moderação dos gastos — disse ele.

Na curva de juros, o mercado ainda estimava um terreno restritivo para a Taxa Selic. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu a 14,24%, ante 14,36% na última sexta-feira. Para janeiro de 2029, o DI aliviou para 14,33%, de 14,455% na sessão anterior.

Para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na próxima quarta-feira, os operadores previam uma redução de 0,25 ponto percentual, a 14,25%, mas ainda havia dúvidas quanto a magnitude total do ciclo de cortes até o fim do ano.

Pesquisa eleitoral divulgada nesta segunda-feira, mostrando perda de competitividade do senador Flávio Bolsonaro (PL) frente a Lula, também reforçou o cenário de cautela para o investidor. A avaliação é de Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, que também vê com preocupação a pressão criada pelos recentes indicadores macroeconômicos:

— A nova pesquisa mostrou adversidades para as chances de um candidato reformista. E estamos num cenário em que é preciso uma correção de rumo. Sem reformas, você caminha para um cenário mais adverso por conta do aumento da relação entre dívida pública e PIB. E, atribui-se que, para haver uma agenda reformista, seria necessário a troca da condução política — ele diz.

Ontem, apesar da ligeira desvalorização, o real foi a segunda moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar dentre as 31 moedas mais negociadas do mundo, ficando atrás apenas da coroa norueguesa.

Em linha com a queda firme do petróleo, as ações preferenciais das petrolíferas encerraram o dia em queda firme, pressionando o Ibovespa: os papéis preferenciais da Petrobras (PN, sem voto) caíram 5,15%, aos R$ 39,06, maior queda diária desde agosto do ano passado. Os papéis ordinários (ON, com voto) desvalorizaram 5,3%, aos R$ 43,74. A empresa perdeu R$ 30 bilhões em valor de mercado. As ações da Prio também fecharam em baixa de 6,91%, aos R$ 57,10.

IA drena recursos

Apesar do fim do conflito se refletir num aumento do apetite a investimentos de maior risco, o retorno das apostas em inteligência artificial também contribuiu para a redução do investimento internacional nos papéis brasileiros.

Desde o pico do ingresso do estrangeiro no segmento de ações brasileiras, em meados de abril, os bolsos internacionais já retiraram, em dois meses, quase R$ 32 bilhões da B3 em dois meses. Para Marcel Andrade, responsável pela área de soluções na SulAmérica Investimentos, as aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) tendem a drenar recursos que apostaram nas companhias dos mercados emergentes:

— Toda aquela dúvida que existia no mercado sobre os resultados das empresas de inteligência artificial ficou para trás. Os balanços mostram que os investimentos estão se pagando. E há esse movimento de euforia dos IPOs, como o da SpaceX, e os que virão, como Anthropic e OpenAI. O fluxo de capitais que tinha deixado os EUA está voltando — ele disse.

Em seu segundo dia de negociações, a SpaceX subiu 19,6%, aos US$ 192,50. De acordo com a consultoria Vanda Research, as pessoas físicas compraram só em ações da companhia o mesmo volume que negociaram em todo o mercado americano na semana passada.

Em Nova York, as Bolsas registraram alta firme, e o índice Dow Jones alcançou nova máxima histórica. O S&P 500, índice de referência americano, subiu 1,65%, aos 7.554 pontos, enquanto o Nasdaq, de papéis ligados à tecnologia, avançou 3,07%, aos 26.684 pontos:

— A volatilidade pode persistir no curto prazo, enquanto os mercados avaliam a implementação e a durabilidade do acordo, mas mantemos nossa visão de que o crescimento resiliente e os lucros corporativos robustos devem continuar impulsionando as ações — afirmou Ulrike Hoffmann-Burchardi, do UBS.

Com a queda do petróleo, operadores americanos passaram a atribuir menor probabilidade a uma alta de juros por lá até dezembro. O Federal Reserve (Fed, o BC americano) também se reúne na quarta-feira para decidir os juros, com apostas na manutenção na faixa atual, entre 3,5% e 3,75%, enquanto avalia de que forma o choque nos preços da energia afetará a economia do país.

(com Bloomberg News)

Autor/Veículo: O Globo

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