Preços dos combustíveis, puxados pelo diesel, disparam nos postos sob o impacto da guerra no Irã

Mesmo sem reajustes de preços nas refinarias da Petrobras depois do início da guerra no Oriente Médio e do fechamento do Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, os postos de combustíveis brasileiros aumentaram os seus preços.

Segundo a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), que representa cerca de 45 mil postos de combustíveis no País, “as distribuidoras vêm elevando os preços de fornecimento aos postos de combustíveis, possivelmente em razão do aumento dos custos de aquisição nas etapas de refino (especialmente junto às refinarias privadas) e de importação”.

“Os postos revendedores, por sua vez, representam apenas o último e mais frágil elo da cadeia de comercialização e estão sujeitos ao aumento do custo para a compra dos combustíveis junto às distribuidoras, com possíveis reflexos nos preços ao consumidor”, respondeu, por meio de nota (leia mais abaixo a íntegra da nota).

Entre as categorias de combustíveis, o preço médio do óleo diesel S-10 registrou a maior alta, do fim de fevereiro até o dia 11, com avanço de 3,45%, segundo levantamento da ValeCard, empresa especializada em meios de pagamento, soluções de mobilidade e benefícios corporativos.

No mesmo período, a gasolina apresentou leve aumento de 0,74%, enquanto o etanol apresentou queda de 0,20%. O levantamento considera transações realizadas em mais de 25 mil postos credenciados em todo o país.

Na média nacional, a gasolina comum passou de R$ 6,462 em fevereiro para R$ 6,510, alta de R$ 0,048. O etanol registrou leve queda, passando de R$ 4,785 para R$ 4,775, recuo de R$ 0,010. Já o diesel S-10 avançou de R$ 6,309 para R$ 6,526, aumento de R$ 0,217 no período.

“Quem depende diretamente de diesel precisa acompanhar de perto a dinâmica entre preço internacional, câmbio e política de repasse. O mercado funciona por equilíbrio econômico. Em momentos de tensão prolongada, a paridade deixa de ser apenas uma referência de preço e passa a ser instrumento de garantia de oferta”, afirma Marcelo Braga, diretor de Mobilidade e Operações da ValeCard. “O gestor que se antecipa revisando contratos, avaliando estoques e projetando custo de reposição protege margem e continuidade operacional.”

Israel e EUA fizeram os primeiros ataques ao Irã no último dia de fevereiro. Nesta quinta-feira, 12, a cotação do petróleo Brent voltou a superar os US$ 100, mesmo depois de a Agência Internacional de Energia (AIE) ter concordado em liberar o maior volume de reservas de emergência da história da organização, que reúne 32 países, para tentar controlar os preços.

Outros levantamentos

Outras pesquisas feitas nos primeiros dias de guerra também indicam altas, ainda que com números diferentes, e indicam impactos até maiores. Segundo análise do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a partir da análise de aproximadamente 93 mil notas fiscais eletrônicas de operações com combustíveis em todos os estados brasileiros, o preço médio nacional do diesel S10 aditivado subiu 8,91%, o equivalente a aproximadamente R$ 0,55 por litro, entre os dias 1 e 8 de maio.

A alta do diesel S10 comum foi quase da mesma magnitude, de 8,70%, cerca de R$ 0,52 por litro. Os maiores impactos foram sentidos no Nordeste. A região registrou alta de 13,87% no diesel S10 aditivado e de 12,96% no diesel S10 comum. Ocorreram variações mais expressivas também no Centro-Oeste, com alta de 10,82% no diesel S10 comum.

Já quanto à gasolina comum o aumento médio nacional ficou em 2,06%, em torno de R$ 0,11 por litro, com maior variação regional no Centro-Oeste, de 4,73%. Para a gasolina aditivada, houve aumento médio de 1,71% no País, sendo que a única região com queda foi o Sul, com retração de 0,95%.

Segundo o presidente do conselho superior do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, as distribuidoras reajustaram os seus preços, após o início do conflito, avaliando “a reserva que tinham para subsidiar a recomposição dos seus estoques”.

As diferenças de aumentos regionais teriam relação com as disparidades regionais de ofertas. As distribuidoras compram os combustíveis das refinarias ou realizam importações, fazem a mistura obrigatória de biocombustíveis, como o biodiesel no diesel e o etanol na gasolina, e revendem aos postos. “O custo de transporte das distribuidoras até as diversas regiões do Brasil explica os preços elevados na região Norte e as variações extremas observadas no Nordeste”, diz.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP), sindicato que representa os trabalhadores do setor, alegou por meio de nota que, mesmo próxima da produção de petróleo de Urucu, paga um dos combustíveis mais caros do País. “A gasolina em Manaus subiu, em média, de um dia para outro, 30 centavos por litro, chegando no patamar de R$ 7,30 na bomba”, disse por meio de comunicado.

Para a FUP, isso reflete a privatização de certas refinarias que eram a Petrobras e foram negociadas durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, como a refinaria de Manaus, a Ream, privatizada em 2022, e a Acelen (antiga Rlam), negociada em 2021.

Na Ream, a gasolina, na refinaria, passou de R$ 2,90 para R$ 3,47 o litro, e o diesel de R$ 3,78 para R$ 5,10, segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Já na Acelen, o litro da gasolina, na refinaria, subiu de R$ 2,56 para R$ 2,86, e o diesel, de R$ 3,31 para R$ 4,21.

Um terceiro levantamento, da empresa de serviços de pagamentos Edenred, mostrou preços médios do diesel S-10 subindo 7,72%, passando de R$ 6,22 para R$ 6,70 por litro, enquanto o diesel comum avançou 6,10%, de R$ 6,23 para R$ 6,61, do fim de fevereiro até a primeira semana de março, dia 6. No mesmo período, a gasolina teve variação mais moderada do que as do diesel, mas também relevante, de 1,24%, passando de R$ 6,44 para R$ 6,52.

Segundo o diretor de frete na Edenred Mobilidade, Vinicios Fernandes, o diesel costuma ser o combustível que reage primeiro a movimentos mais bruscos no mercado internacional de petróleo. Isso devido principalmente por ter forte relação com a dinâmica do transporte de cargas no País.

Além disso, o Brasil não é autossuficiente na produção do combustível e importa entre 20% e 30% do diesel consumido internamente, tornando o mercado mais sensível a oscilações internacionais, principalmente em momentos de tensão geopolítica como as que afetam rotas estratégicas de transporte de petróleo, como o Estreito de Ormuz, responsável por escoar cerca de 20% da produção global.

“Quando há uma alta mais forte no preço do petróleo, é comum que os primeiros sinais apareçam no diesel. Como ele é o principal combustível do transporte rodoviário de cargas, qualquer pressão de custo tende a se refletir rapidamente nesse mercado”, analisa Fernandes. “Em cenários de maior volatilidade internacional, reajustes também começam a aparecer ao longo da cadeia de abastecimento, algo que já começa a ser percebido no mercado nos últimos dias, apesar de a Petrobras ainda não ter anunciado reajustes oficiais nas refinarias.”

Como foi a resposta do governo

Nesta quinta-feira, 12, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote de medidas para controlar o preço do diesel no País. A principal delas é um decreto que zera as alíquotas de impostos federais na importação e comercialização do diesel, com isenção no pagamento do Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).

Durante o anúncio, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse que o governo quer “aperfeiçoar o trabalho de monitoramento e fiscalização dos órgãos de controle brasileiros”. Ele acrescentou que, diferentemente da mudança nas alíquotas de PIS e Cofins, as novas regras para os órgãos de controle monitorarem os preços e coibirem eventuais abusos serão permanentes.

“Vamos criar condições para aperfeiçoar o trabalho de monitoramento e fiscalização dos órgãos de controle brasileiros. Dar mais ferramentas para a ANP poder acompanhar e monitorar a prática de preços no Brasil e dar mais instrumentos para os órgãos de defesa do consumidor terem referências objetivas para que possam atuar”, declarou. “A imprensa tem divulgado constantemente que, quando a Petrobras, que tem a produção majoritária no Brasil, reduz preços, essa redução demora muito a chegar na bomba quando chega.”

Também durante o anúncio, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad afirmou que haverá “critérios objetivos” para punir os agentes que praticam preços abusivos de combustíveis. O governo Lula está criando dois novos tipos de quantificadores para identificar a abusividade de preços: quando houver armazenamento injustificável de combustível ou quando ocorrer aumento excessivo sem fundamentação técnica.

A matéria será disciplinada via Medida Provisória (nº 1340/2026) e posterior resolução da ANP. É nesse normativo infralegal que a agência vai especificar ponto a ponto os critérios para eventuais punições.

Rui disse que a privatização da BR Distribuidora fez com que esse monitoramento dos preços piorasse. “A Petrobras sempre deteve uma parcela menor no mercado de distribuição e menor ainda no mercado de varejo. Mas, mesmo com a participação pequena, tínhamos uma referência. Como foi privatizado, hoje não tem essa referência. Portanto, o que percebemos nas capitais e nos mercados é o abuso na prática de preços”, declarou.

O ministro da Casa Civil afirmou que as medidas podem servir para “induzir que a gente passe a processar mais petróleo”. “O Brasil é extremamente superavitário na produção de petróleo, mas ainda importa uma parcela considerável do diesel que consome. Isso significa que estamos exportando muito óleo cru sem processar e importando óleo processado, o diesel. É importante que essa medida aumente o processamento do óleo bruto”, declarou.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), até o momento, é “limitada” a exposição direta do Brasil ao conflito no Oriente Médio. Nesta semana, a pasta informou que houve “intensificação” das ações de monitoramento das cadeias de suprimentos globais de derivados de petróleo e da logística do abastecimento de combustíveis, além dos preços desses itens da pauta comercial.

Dois dias antes do anúncio do pacote governamental, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), enviou um ofício ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitando a análise de recentes aumentos nos preços dos combustíveis registrados em quatro estados e no Distrito Federal.

Segundo o ministério, o pedido foi encaminhado após declarações públicas de representantes de sindicatos (Sindicombustíveis-DF, Sindicombustíveis Bahia, Sindipostos-RN, Minaspetro -MG e Sulpetro -RS) informarem que distribuidoras elevaram os preços de venda para os postos sob a justificativa de alta no preço internacional do petróleo.
Leia a íntegra da nota da Fecombustíveis

A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), entidade que reúne 34 sindicatos patronais e representa cerca de 45 mil postos de combustíveis no país, atenta aos recentes acontecimentos no Oriente Médio que vem afetando as cotações do petróleo no mercado internacional, e diante das diversas informações divulgadas nos meios de comunicação sobre os impactos nos preços de combustíveis no Brasil, vem a público esclarecer o seguinte.

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã tem gerado aumento nos preços do petróleo e, consequentemente, de seus derivados no mercado internacional. A Petrobras responde por aproximadamente 70% do suprimento de combustíveis para o mercado interno e o país tem a necessidade de importar cerca de 30% de óleo diesel e 10% de gasolina. Por isso, os preços nacionais são afetados pelos preços praticados no mercado externo.

Além disso, o parque de refino no Brasil é composto por refinarias privadas, como a Refinaria de Mataripe, controlada pela Acelen (BA), a Refinaria Clara Camarão (RN) e a Refinaria do Amazonas (AM), que geralmente seguem os preços do mercado internacional, diferente dos preços praticados pela Petrobras. Há ainda empresas que realizam importação de combustíveis para distribuição no mercado interno, que também são diretamente impactadas pelos preços internacionais.

Importante esclarecer que os postos de combustíveis somente podem comprar derivados de petróleo fornecidos pelas distribuidoras, não tendo a liberdade de comprar diretamente das refinarias ou dos importadores, razão pela qual os preços de revenda são diretamente impactados pelos preços praticados pelas distribuidoras.

Segundo relatos recebidos pela Fecombustíveis, as distribuidoras vêm elevando os preços de fornecimento aos postos de combustíveis, possivelmente em razão do aumento dos custos de aquisição nas etapas de refino (especialmente junto às refinarias privadas) e de importação. Os postos revendedores, por sua vez, representam apenas o último e mais frágil elo da cadeia de comercialização e estão sujeitos ao aumento do custo para a compra dos combustíveis junto às distribuidoras, com possíveis reflexos nos preços ao consumidor.

A Fecombustíveis lembra que o mercado é livre e competitivo em todos os elos da cadeia, cabendo a cada agente determinar se irá ou não repassar eventuais aumentos ou reduções de custos, conforme a lógica de mercado e as estratégias competitivas de cada empresa.

Autor/Veículo: O Estado de São Paulo

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