Venda da BR Distribuidora, dona dos postos Petrobras, mudou dinâmica dos preços dos combustíveis

Os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã começaram há apenas duas semanas, mas o tempo foi mais do que suficiente para os desdobramentos do conflito abrir alguns flancos no setor de combustíveis do Brasil, ainda que o mercado nacional não dependa do petróleo oriundo do Oriente Médio. Um deles tem como cerne a Vibra Energia, empresa que opera os postos da marca Petrobras após a privatização da BR Distribuidora, em 2019.

A Vibra é a maior distribuidora e comercializadora de combustíveis do país, com uma rede de mais de 8 mil postos e cerca de 22% de participação no mercado. Para o diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Mahatma Ramos, há evidências que a privatização do elo da cadeia de distribuição e comercialização da Petrobras, tanto da BR Distribuidora quanto da Liquigás, alteraram as dinâmicas do mercado de distribuição e comercialização de combustíveis.

Segundo análise do Ineep, há uma nítida aceleração nos ganhos na margem de distribuição e revenda das distribuidoras de combustíveis entre 2019 e 2025.

A privatização da BR Distribuidora foi concluída totalmente em 2021, quando a petroleira estatal vendeu o restante de sua participação após perder o controle da empresa anos antes. Mesmo fora do negócio, que passaria a se chamar Vibra Energia, a Petrobras licenciou sua marca dos postos de gasolina para a nova empresa até 2029.

Ou seja, desde 2021, os postos de gasolina com a marca Petrobras não pertencem mais à estatal, mas a uma empresa privada, a Vibra. Além disso, uma cláusula de não concorrência (non-compete), estabelecida no processo de privatização da BR Distribuidora, impede a Petrobras de atuar diretamente na distribuição de combustíveis até meados de 2029.

De acordo com os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em janeiro de 2019, a margem bruta de distribuição e revenda da gasolina era de R$ 0,74 por litro (/l). Em maio de 2025, segundo projeções realizadas com a mesma base de dados, esse valor alcançou R$ 1,14/l, aumento significativo de 54,1%.

Um padrão semelhante ocorreu no caso do diesel, cuja margem passou de R$ 0,66/l para R$ 1,05/l, uma alta 59%, e do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), o gás de cozinha, que registrou elevação de R$ 31,96 para R$ 54,54 por botijão de 13 kg (+70,6%). A desproporção entre a redução nos preços de refinaria e a manutenção de altas margens, destaca o Ineep, levanta questionamentos sobre possíveis retenções de benefícios que deveriam chegar ao consumidor final.

Enquanto isso, a nova BR Distribuidora viu a disparada do seu Ebitda (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) por metro cúbico (m³), indicador do setor que mede o resultado financeiro para cada unidade de combustível vendida, após amortizar os custos da compra, logística e operação do produto. Se nas mãos da Petrobras a média do Ebitda/m³ era de R$ 66/m³, sob posse da Vibra Energia este número está acima dos R$ 160/m³.
Crise no Estreito de Ormuz não justifica alta expressiva nas últimas semanas

Para Mahatma Ramos, a privatização gerou prejuízos para o consumidor brasileiro nos últimos anos, visto que as distribuidoras privadas nem sempre acompanharam a redução ou manutenção dos preços produzida pela nova política de preços da Petrobras. Em 2023 a estatal abandonou o Preço de Paridade de Importação (PPI), instituído em 2016, que considerava a cotação do dólar e do petróleo no mercado internacional no cálculo do preço do petróleo vendido pela estatal às distribuidoras.

“Em vários momentos, o que a gente observou é que essas empresas de distribuição privadas usaram a queda nos preços observados nas refinarias da Petrobras para ampliar suas margens de lucro”, disse.

O especialista do Ineep afirma que o Brasil importa menos de cerca de 23% dos derivados de petróleo que consome, sejam diesel, gasolina, querosene de aviação ou gás. Assim, ainda que o conflito no Oriente Médio e a crise no Estreito de Ormuz afetem os preços dos combustíveis vendidos em território brasileiro, os efeitos vão impactar estoques e produção futuros das empresas, não no estoque comprado e na produção realizada anteriormente.

Esse impacto futuro não justifica a alta expressiva dos preços observada nos postos de gasolina do país recentemente. Somente na última semana, o custo da gasolina subiu 2,5%, e o do diesel 11,8%, segundo levantamento da ANP. “As distribuidoras e os postos de gasolina agora estão operando com um combustível que já haviam adquirido a preços anteriores. Então, esse aumento repentino, na verdade, reflete sim esse oportunismo”, avalia.
Críticas de todos os lados

A privatização esteve no alvo dos ministros do governo Lula (PT) na quinta-feira (12/3), durante o anúncio de uma série de medidas do governo federal para reduzir os impactos da volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional no setor de combustíveis brasileiro. A preocupação, destacou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), deve-se ao fato da Petrobras não deter mais uma importante distribuidora de combustíveis.

Uma das medidas, apontou Haddad, é a criação de novos tipos para caracterizar abusividade do distribuidor, tanto para armazenamento de combustível injustificado quanto para aumento abusivo do preço, que passa a ser fiscalizada pela ANP a partir de critérios objetivos, que serão detalhados em um decreto.

Já o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT) lamentou que a redução dos preços pela Petrobras demora a chegar na bomba de combustível e, às vezes, chega de forma parcial ou simplesmente não ocorre. Enquanto isso, por outro lado, segundo o ministro, o repasse das altas nos preços chegam a ser até mesmo antecipado pelas empresas.

A venda da BR Distribuidora também foi novamente criticada na sexta-feira (13/3) pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante o anúncio do reajuste no preço do diesel. Ela afirmou que a privatização impediu a petroleira estatal de atuar no preço final ao consumidor, o que onerou a sociedade e prejudicou a estatal.

Além disso, no início da semana, o Minaspetro, sindicato que representa os donos de postos de combustíveis em Minas Gerais, acusou a Vibra Energia de restringir a entrega dos produtos somente para os estabelecimentos da sua própria bandeira, deixando na mão os revendedores de marca própria, chamados também de Bandeira Branca. Segundo a entidade, os postos já estariam desabastecidos no Estado.

Sobre a acusação do Minaspetro, a Vibra declarou que enfrentou desafios na sua distribuição causados por questões climáticas, o que prejudicou o abastecimento de postos de combustíveis em Minas.

A reportagem procurou a companhia para comentar as demais declarações e as análises, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto.

Autor/Veículo: O Tempo

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