IPCA-15 acelera em abril com alta de combustíveis e alimentos, mas fica abaixo das projeções

29 de abril de 2026

A inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acelerou a 0,89% em abril, após marcar 0,44% em março, apontam dados divulgados nesta terça-feira (28) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O índice foi pressionado pela alta dos combustíveis com a guerra no Irã, que aumentou as cotações do petróleo, e pelo avanço do custo dos alimentos. A variação de 0,89% é a maior para meses de abril em quatro anos, ou seja, desde 2022 (1,73%).

O novo resultado, porém, ficou abaixo da mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,99%, conforme pesquisa da agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,7% a 1,11%.

No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 acelerou a 4,37% até abril, disse o IBGE. A taxa era de 3,9% até março.

Por ser divulgado antes, o IPCA-15 sinaliza uma tendência para o IPCA, o índice oficial de preços do Brasil. O IPCA serve de referência para a meta de inflação perseguida de maneira contínua pelo BC (Banco Central).

O centro da meta é de 3% no acumulado de 12 meses, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa teto de 4,5% e piso de 1,5%.

A divulgação do IPCA-15 coincide com a nova reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). O colegiado do BC tem encontro a partir desta terça para definir o patamar da taxa básica de juros, a Selic, que está em 14,75% ao ano.

A decisão do comitê sai na quarta (29), e analistas esperam corte de apenas 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic para 14,5%.

“O IPCA-15 não mexe [na previsão para o Copom], mas acho que, se ele tem alguma função neste momento, é trazer um pouco de calma para os analistas que já estavam precificando uma mudança brusca de juros, alguns falando de juros para cima ou de estabilidade”, diz o economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating.

“Ainda tem espaço para cortar a Selic. A gente está esperando um corte de 0,25 ponto percentual”, completa.

A taxa de juros é a ferramenta do BC para controlar a inflação. O Copom iniciou um ciclo de redução da Selic em março, após o registro de sinais de trégua dos preços no país.

O cenário, contudo, passou por mudanças a partir da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Ao provocar disparada nas cotações do petróleo, o conflito encareceu combustíveis em países como o Brasil.

COMBUSTÍVEIS E ALIMENTOS FICAM MAIS CAROS

Segundo o IPCA-15, a gasolina teve aumento de 6,23% em abril. Essa alta gerou um impacto de 0,32 ponto percentual no índice. Foi a maior pressão individual na pesquisa do IBGE.

A segunda principal influência veio do leite longa vida (0,11 p.p.), que subiu 16,33% neste mês. O terceiro maior impacto ficou com o óleo diesel (0,04 p.p.), cuja alta foi de 16%.

A carestia dos combustíveis reflete, em parte, aumentos promovidos por importadores privados.

A Petrobras também subiu o preço do diesel em suas refinarias em março, mas o reajuste foi atenuado pela isenção de impostos federais após o início da guerra. A carestia preocupa o governo Lula (PT) com a proximidade das eleições de outubro.

O diesel influencia o custo de fretes de mercadorias diversas, incluindo alimentos.

No IPCA-15, o grupo alimentação e bebidas teve alta de 1,46% em abril, o que gerou um impacto de 0,31 p.p. no índice. Foi a maior pressão entre os nove segmentos pesquisados.

Dentro de alimentação e bebidas, os preços da alimentação no domicílio (em casa) aceleraram a 1,77%.

Contribuíram para esse resultado as altas da cenoura (25,43%), da cebola (16,54%), do leite longa vida (16,33%), do tomate (13,76%) e das carnes (1,14%). Do lado das quedas, o IBGE citou a maçã (-4,76%) e o café moído (-1,58%).

Segundo o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a alta do grupo dos alimentos reflete uma combinação de dois fatores.

A primeira questão é a redução sazonal da oferta de produtos neste período do ano. A segunda influência vem da guerra, que pressionou os custos dos fretes, com o diesel mais caro.

“Tem um pouco do [efeito do] petróleo na variação dos alimentos in natura e também as questões sazonais, da época do ano em que o produto fica realmente mais escasso. Isso é mais nítido no leite”, diz Braz.

“Como as condições de pastagem pioram com a diminuição das chuvas, o pecuarista tem de entrar com rações [para alimentação das vacas].”

O grupo dos transportes teve a segunda maior alta e o segundo principal impacto no IPCA-15 de abril (1,34% e 0,27 p.p.). Os dados refletem o avanço dos preços dos combustíveis, enquanto a passagem aérea teve baixa na coleta do IBGE (-14,32%).

O bilhete de avião, aliás, foi apontado como o principal fator de surpresa nas projeções do índice de abril. Analistas esperavam variação maior para a passagem aérea.

“A tendência, contudo, é de reversão parcial desse movimento nos próximos meses, diante do avanço da guerra e de seus impactos sobre o querosene de aviação”, afirmou Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos.

Juntos, os grupos alimentação e bebidas e transportes responderam por 65% do IPCA-15 deste mês.

PROJEÇÕES DE INFLAÇÃO SOBEM COM GUERRA

Com o conflito no Oriente Médio, analistas revisaram para cima as projeções de inflação nas últimas semanas.

A mediana das estimativas do mercado financeiro aponta IPCA de 4,86% ao final de 2026, de acordo com o boletim Focus divulgado na segunda (27) pelo BC. Quatro semanas antes, a expectativa era de 4,31%.

Isso mostra que o mercado passou a prever alta acima do teto de 4,5% da meta de inflação.

Uma das diferenças entre o IPCA-15 e o IPCA é o período de coleta dos dados. O IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior e a primeira do mês de referência. No caso do índice de abril, divulgado nesta terça, a apuração foi realizada de 18 de março a 15 de abril.

Já o levantamento do IPCA ocorre ao longo do mês de referência. Por isso, o índice de abril ainda não está fechado. Será publicado pelo IBGE em 12 de maio.

Autor/Veículo: Folha de São Paulo

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