Os contratos futuros de petróleo hoje fecharam em alta diante das dúvidas sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, principal rota marítima para o transporte de petróleo do Oriente Médio. O Irã reafirmou que não pretende liberar a passagem enquanto os Estados Unidos não atenderem a uma série de exigências, aumentando o temor de que a interrupção do tráfego se prolongue.
Nesta segunda-feira (10), o petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, para setembro encerrou em alta de 5,05%, a US$ 82,13 por barril. O Brent, referência internacional, para outubro avançou 4,99%, a US$ 87,72 o barril.
Irã condiciona reabertura a concessões dos EUA
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou nesta segunda-feira (10) que o país não reabrirá o estreito até que Washington atenda às condições de Teerã. Segundo ele, os Estados Unidos precisam interromper e reparar o que o governo iraniano considera ações ilegais e destrutivas.
Entre as exigências estão a suspensão do bloqueio americano a portos iranianos, o pagamento de indenizações pelos danos provocados pela guerra, o fim das sanções econômicas e a liberação de ativos iranianos congelados.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta tarde a possibilidade de o Irã receber compensação pelos danos provocados pela guerra como condição para avançar nas negociações. Segundo Trump, essa exigência não havia sido apresentada durante as conversas. O presidente americano também afirmou que os iranianos deveriam pagar compensações às famílias de pessoas mortas no conflito.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohammad Bagher Zolghadr, também afirmou que Washington teria de retirar suas forças da região, suspender todas as sanções e liberar os ativos congelados.
As exigências aumentam a distância entre as partes e dificultam uma reabertura rápida da passagem. O Irã mantém conversas separadas com Omã sobre o trânsito de embarcações e a possibilidade de criação de um corredor temporário de navegação, mas Teerã afirma que qualquer retomada efetiva depende de negociações com os Estados Unidos. A resistência de Washington às condições apresentadas pelo Irã reduz as perspectivas de uma solução imediata para o impasse.
Os Emirados Árabes Unidos também afirmaram que o Irã lançou um ataque com míssil contra um de seus navios, outro fator de tensão que ameaça comprometer as negociações e reforça o temor de novas interrupções no tráfego marítimo da região.
Petróleo também entra no cálculo dos juros
O comportamento da commodity ganhou importância adicional para os mercados porque uma alta persistente do petróleo pode aumentar a inflação de energia. Nos Estados Unidos, isso interfere nas expectativas para a política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Na última sexta-feira, o payroll, relatório oficial sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos, dividiu espaço no radar dos investidores com as notícias sobre Ormuz. O relatório veio bem abaixo do esperado: a economia americana fechou 23 mil vagas fora do setor agrícola em julho, ante expectativa de mercado que ia de 10 mil a 140 mil novos empregos, a mediana das estimativas do Projeções Broadcast apontava criação de 80 mil vagas.
Houve ainda revisões negativas para os dois meses anteriores: junho caiu de +57 mil para +20 mil, e maio, de +129 mil para +63 mil, uma revisão combinada de 103 mil empregos a menos do que o inicialmente reportado. A taxa de desemprego, por sua vez, recuou para 4,1%.
No Brasil, o petróleo também influenciou o câmbio, a inflação e os juros futuros. A alta da commodity tende a beneficiar empresas produtoras, como a Petrobras, mas pode elevar as pressões inflacionárias caso persista por mais tempo. Nesta segunda-feira, as ações da petroleira se recuperam após uma forte baixa desde o início da sessão. Por volta das 16h06 (de Brasília), o PETR3 subia 3,76%, a R$ 47,41, enquanto PETR4 caía 3,79%, a R$ 42,42.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, para 14% ao ano na semana passada. A decisão deixou os próximos passos dependentes da evolução dos indicadores econômicos.
Nesta semana, o mercado brasileiro ainda acompanha a ata do Copom e o IPCA de julho, enquanto os Estados Unidos divulgam o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) na quarta-feira. O petróleo entra nessa equação porque uma alta prolongada pode dificultar a convergência da inflação e reduzir o espaço para cortes de juros.
Por enquanto, a principal variável para a commodity continua sendo Ormuz. Se as negociações entre Irã, Omã e Estados Unidos avançarem, parte do prêmio de risco incorporado ao petróleo pode ser devolvida. Se o impasse persistir e a interrupção do tráfego se prolongar, o mercado continuará precificando o risco de oferta em uma das principais rotas de energia do mundo.
