Diesel: Venda direta, puxada pela Petrobras, cresce 20 vezes e incomoda distribuidoras

6 de maio de 2026

A venda direta de diesel B (mistura de diesel com biodiesel), puxada pela Petrobras, disparou no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O volume comercializado diretamente por produtores a grandes consumidores saltou de 1,1 milhão de litros, no último trimestre de 2025, para 23,4 milhões de litros, de janeiro a março, uma alta superior a 2.000%, ou 20 vezes.

O avanço foi concentrado em Minas Gerais, que respondeu por 20 milhões de litros do total, alta de 36 vezes em relação ao período de outubro a dezembro de 2025.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, as vendas foram realizadas principalmente da Petrobras para a Vale — responsável por 4% do consumo de diesel do País. Mas, diferentemente da venda de diesel pelas distribuidoras, a venda direta não tem como contrapartida obrigatória a compra de Créditos de Descarbonização (CBIOs), o que, na avaliação do setor de distribuição, configura concorrência desleal e contraria o discurso de compromisso com a descarbonização das duas empresas.

Procuradas, a Vale informou “que este contrato está sujeito a cláusulas de confidencialidade que visam a proteger informações estratégicas das partes envolvidas”. Já a Petrobras disse que “a companhia avalia continuamente a possibilidade de realizar vendas diretas para grandes consumidores, sempre em estrita conformidade com a legislação e a regulação vigentes. Esse processo contempla tanto a definição dos públicos elegíveis quanto o pleno atendimento às exigências aplicáveis à comercialização nesse segmento”.

A estatal reforçou ainda, que todas as operações de comercialização de óleo diesel B são conduzidas em total observância à legislação brasileira.

Como as distribuidoras veem o movimento da Petrobras

A venda direta de diesel pela Petrobras tem sido lida pelas distribuidoras como uma maneira de driblar o impedimento de atuar no segmento, depois que a empresa vendeu a BR Distribuidora no governo Bolsonaro. Os termos contratuais impedem a concorrência no setor por 10 anos desde 2019, quando foi realizada a primeira etapa da venda. Enquanto isso, a estatal não pode concorrer com a Vibra Energia (ex-BR Distribuidora), nem usar a marca Petrobras em postos de abastecimento, exclusividade da Vibra até junho de 2029.

A venda direta de diesel foi tema de questionamento à ANP no ano passado pelo Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom). Na época, a entidade chegou a pedir a suspensão da venda direta de diesel, regulamentada pela ANP na Resolução 852/2021, sem sucesso.

Em nota ao Estadão/Broadcast, a ANP afirmou que “a venda direta de diesel ao consumidor final é prevista na Resolução ANP 852/2021 (inciso IX, art. 20). Cabe ressaltar que a Resolução ANP nº 16/2010, vigente anteriormente à Resolução ANP nº 852/2021, já não vedava a comercialização de derivados entre refinaria e consumidor final. Assim, a Resolução 852/2021 não promoveu inovação nem introduziu a venda direta. A ANP vem mantendo contato com o Sindicom e dialogando sobre o tema”.

Os dados da ANP mostram que, além de Minas Gerais, outros mercados registraram aumentos expressivos nas vendas diretas, apesar de volumes menores, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo, que mais do que dobraram esse tipo de comércio. As vendas para o Rio subiram de 29,8 mil para 1,6 milhão de litros no período; no mercado paulista, foram de 509 mil litros para 1,2 milhão no primeiro trimestre deste ano.

A alta das vendas diretas acontece em um momento de alta de preço do diesel por causa da guerra no Oriente Médio e da limitação de entregas do combustível às distribuidoras. O setor afirma que demandas adicionais não estão sendo atendidas pela Petrobras e, segundo fontes, cerca de 10% dos pedidos das distribuidoras para maio não foram aceitos pela estatal.

Em janeiro, a estatal fechou com a Vale um contrato para a venda direta de diesel S10 com 15% de biodiesel, como parte da estratégia da companhia de aproximação com os consumidores finais de seus produtos por meio da venda direta, mas nenhuma das empresas informou o volume.

Antes de deixar o cargo, o ex-diretor de Comercialização e Logística Cláudio Schlosser afirmou que um dos focos da venda direta da Petrobras era também o agronegócio. “O agronegócio é onde vemos o maior crescimento do mercado de diesel, concentrado especialmente no Centro-Oeste e na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahi). Vemos um futuro em que, cada vez mais, vamos ofertar a venda direta do diesel e vamos processar matérias-primas renováveis nas nossas refinarias”, disse em novembro do ano passado.

Autor/Veículo: O Estado de São Paulo

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