Mesmo em meio à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, o Citi mantém suas perspectivas de queda no preço do petróleo para este ano e para 2027. Em relatório publicado na tarde da segunda-feira, 13, o banco diz trabalhar com cenário em que os desentendimentos entre os dois países recrudescem para depois arrefecerem. “Da última vez, as coisas escalaram até o ponto de enfrentar destruição mútua de energia/infraestrutura pública, e então o memorando de entendimento foi firmado”, dizem os analistas do Citi, referindo-se ao acordo assinado em junho que estabeleceu um cessar-fogo, ora rompido. Eles acreditam num retorno à diplomacia de ambos os lados em uma ou duas semanas.
Pela lógica da instituição, pensar num conflito interminável que afete substancialmente os fluxos pelo Estreito de Ormuz é uma hipótese difícil de sustentar e, por isso, o mais provável seria a volta da negociação de um acordo. “Assim, seja hoje ou nos próximos meses, o que é difícil dizer com precisão, nosso cenário base é de que isso se trate de uma oportunidade de hedge para os produtores se protegerem de um cenário de baixa do preço do barril de petróleo entre US$ 50 e US$ 60 no caso de um acordo entre os países em conflito”, escreveram os mesmos analistas na última semana, quando o cessar-fogo foi suspenso.
Em suas projeções, o Citi permanece com a perspectiva do petróleo Brent com média de US$ 75 o barril no terceiro trimestre de 2026. Para o quarto trimestre, a expectativa é de US$ 70, e de US$ 65 para 2027. Os contratos, por sua vez, voltaram a rondar os US$ 85 após o presidente dos EUA, Donald Trump, ter afirmado que iria passar a cobrar uma taxa de 20% para navios atravessarem com segurança o Estreito de Ormuz. Teerã criticou a medida e afirmou ser a “guardiã” do estreito, mesmo termo utilizado por Trump para se referir aos EUA.
Na terça-feira, 14, o republicano voltou atrás e comentou, em sua rede Truth Social, que quer trocar a taxa de navegação em Ormuz de 20% por acordos comerciais e investimentos dos países do Golfo nos EUA.
Em entrevista ao Estadão/Broadcast na última semana, o estrategista de commodities do Citi, Eric Lee, disse que o mercado interpretava à época o anúncio do memorando de entendimentos de junho como indicativos de um desfecho negociado ou, ao menos, de manutenção dos fluxos. “O mercado, de forma geral, está encarando o memorando de entendimento e os desdobramentos desde então como fortes sinais de que provavelmente vamos chegar a algum tipo de acordo – ou pelo menos à reabertura dos fluxos pelo Estreito de Ormuz”, afirmou.
No entanto, o acordo ao qual Lee se refere ruiu na semana passada, quando o Irã atingiu três petroleiros que transitavam por uma rota não aprovada pelo regime do país na costa de Omã. Depois disso, Trump reiterou diversas vezes que o cessar-fogo havia acabado, os EUA bombardearam alvos no Irã e voltaram a implementar um bloqueio naval à nação persa nesta terça-feira.
Lee já ressaltava, por sua vez, que a tentativa de paz era rodeada de incertezas, como por exemplo, a tentativa do Irã de incluir Israel e Líbano num arranjo regional mais amplo. Os governos libanês e israelense retomaram negociações nesta terça-feira, em Roma, na Itália. Os possíveis pedágios no estreito também estavam nas contas de risco do banco, embora Washington ainda não tivesse sinalizado que também cobraria taxas.
Sobreoferta antes da guerra e sobreoferta depois
O Citi leva em conta em seu cenário que o petróleo já vinha em situação de sobreoferta antes do conflito. “Havia sobreoferta antes da guerra e haverá sobreoferta depois”, enfatizou Lee. O mercado global de petróleo enfrenta um cenário de excesso de oferta, apesar das últimas incertezas, impulsionado pelo aumento da produção de países de fora do grupo formado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e nações aliadas (Opep+), como Brasil, EUA, Canadá e Guiana. Os EUA são um exportador líquido da commodity, produzindo mais do que consomem, com Trump pressionando, desde sua volta à Casa Branca, pela retomada da produção local de combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis.
Lee disse ainda que recentemente se teve notícias de mais barris no mercado físico: “Parece haver bastante petróleo bruto disponível por aí”, afirmou, a ponto de refinarias asiáticas reofertarem cargas aos EUA. Segundo ele, a China, que fez grandes estoques em meio à incerteza geopolítica, deve voltar a comprar óleo em breve. “Quando a China sai para comprar e estocar muito mais, eles podem realmente influenciar o mercado de uma maneira. E quando eles param de comprar, podem realmente afrouxar o mercado de outra maneira. Então, eu diria que esse é outro fator que permanecerá muito crucial daqui para frente”, enfatizou.
Os países da Opep+ também pesam nessa conta. O bloco vem elevando as cotas de produção, lembra Lee, que aponta que a saída dos Emirados Árabes Unidos do grupo tende a liberar mais capacidade: “Isso significa que a capacidade de produção deles não fica mais limitada e eles vão produzir bem mais”.
